A preparação física no período da infância e adolescência deve ser aplicada cuidadosamente, pois além de levar em consideração a modificação adequada das variáveis de treinamento (frequência, intensidade, volume, densidade e carga) é necessário considerar a fase de desenvolvimento de aspectos físicos e cognitivos em que o indivíduo se encontra.

Crianças e jovens precisam se movimentar para que seu desenvolvimento psíquico e físico seja harmônico, contudo, todo treinamento que visa o desempenho deve ser uma opção do praticante e não uma imposição dos pais e/ou responsáveis. É importante também destacar a necessidade de uma melhor compreensão dos fatores que podem interferir na mobilidade das articulações, especialmente entre o período da segunda infância (idade de 7 a 10/11 anos, de acordo com Piaget, 1982) e o início da puberdade (WEINECK, 2013; MELO, 2011). Weineck (2013) afirma que o treinamento deve ser apropriado à idade física e mental do aluno, sendo que em crianças, este é um processo sistemático a longo prazo, com procedimentos diferentes dos de adultos.

Na infância, em consequência do rápido desenvolvimento do sistema nervoso central, torna-se fundamental uma ampla e adequada variação nos estímulos ambientais, de maneira que o desenvolvimento motor, cognitivo e afetivo-social seja favorecido. Na adolescência, ocorrem alterações biológicas associadas ao pico de produção dos hormônios, testosterona no sexo masculino e estradiol no feminino, variando muito quanto à idade cronológica, gerando a necessidade de que os estímulos motores sejam adequadamente ajustados de acordo com o estágio de maturação biológica e com as experiências anteriores (A.H.N. Ré ,2011).

Atividades como o ballet e outras modalidades de dança, ginástica rítmica e artística, são frequentemente procuradas na infância e adolescência, principalmente por crianças do sexo feminino, e uma das capacidade físicas que estas modalidades têm em comum é a flexibilidade.

A flexibilidade é considerada um componente importante da aptidão física relacionada à saúde (MINATTO et al, 2010) e é fundamental para que haja resultado e desempenho satisfatório nas modalidades acima mencionadas, devido à exigência de grandes amplitudes de movimentos nessas práticas.

Durante a adolescência, ocorre uma diminuição da flexibilidade com tendência a aumentar posteriormente atingindo um platô, e na idade adulta tende a diminuir novamente (MINATTO et al, 2010; BERTOLLA et al,2007). Minatto et al (2010) sugerem que a diminuição da flexibilidade que ocorre na adolescência pode estar relacionada ao crescimento longitudinal mais acentuado dos ossos longos do que dos músculos e tendões, recorrente das alterações hormonais, provocando uma diminuição temporária na flexibilidade, até que essas estruturas cresçam na mesma proporção.

A partir dessas informações, acredita-se ser necessário um controle maior no trabalho de preparação física neste período, de maneira que a intensidade do exercício em que há maior exigência de locomoção, seja aplicada adequadamente  em todas as sessões de treinamento, observando-se a percepção subjetiva do esforço do aluno e o cuidado ao trabalhar com intensidades altas.

No posicionamento oficial da Sociedade Brasileira de Medicina e do Esporte através de Lazolli et al (1998) é abordado a prescrição e os cuidados para a atividade física e saúde de crianças e adolescentes. Dentre os aspectos discutidos, recomenda-se que o treinamento deve “envolver os principais movimentos articulares e ser realizado de forma lenta até o ponto de ligeiro desconforto e então mantidos por cerca de 30 segundos” (vejam o post “Como melhorar minha Flexibilidade?” de Bárbara Pessali-Marques. O ponto de desconforto recomendado é aquele momento em que se sente uma leve sensação de dor ou incômodo ao alongar o músculo, ou seja, uma percepção do próprio aluno quanto a intensidade em que se está alongando. Mas é preciso estar atento! Pois a percepção de dor de cada aluno é subjetiva e alguns alunos podem, de fato, sentir mais dor que outros para o mesmo esforço. Para entender melhor, leias a postagem sobre “Entendendo as dores no alongamento” por Bárbara Pessali-Marques.

A partir dos 3 anos de idade o treinamento de flexibilidade já pode ser iniciado, sendo que até os 6 anos, recomenda-se a inserção dos exercícios através de pequenos jogos ou sessões com alto componente lúdico (Rassilan e Guerra, 2006). Ou seja, ao iniciar em alguma modalidade de dança ou ginástica, a flexibilidade pode e deve sim ser trabalhada com crianças, porém de maneira prazerosa e divertida (o Bastidores utiliza exercícios do método BPM para isso). Estes autores também afirmam que dos 7 anos ao início da puberdade pode-se exigir um grau alto no desenvolvimento dessa capacidade com finalidade esportiva. Este é o momento então, em que a criança está no auge do ganho de flexibilidade, podendo se tornar uma bailarina ou atleta com grandes amplitudes de movimento (ADM), proporcionando um aspecto estético mais adequado e apreciado nessas modalidades.

Para que haja ganho de flexibilidade, Bertolinni et al (2009) recomendam programas diários de alongamento. Os mesmos autores afirmam que imobilizar o músculo em posição alongada, propicia alterações no tecido contrátil, aumentando o comprimento de miofibrilas ao ocorrer a adição de novos sarcômeros em série, porém é apenas uma hipótese que ainda não foi confirmada.  É importante ressaltar que todo trabalho de preparação física, deve ser realizada por um profissional de Educação Física capacitado, que de preferência, tenha um conhecimento maior a respeito da modalidade em que a criança/treinador deseja que seja aprimorada. E também fora dos horários de aulas tradicionais, ou seja, onde se prioriza a técnica e a parte artística da modalidade.

Agora que você já sabe um pouquinho dos cuidados necessários com este tipo de trabalho na infância e adolescência, vamos colocar em prática? Sempre respeitando o limite do seu aluno. É importante lembrar que, muitas vezes, quando achamos que o aluno está “roubando” por não conseguir manter a postura do alongamento, enquanto, aparentemente seus colegas conseguem, é na verdade, devido as individualidades de cada um. Ele pode estar falando a verdade e pressioná-lo pode acabar machucando-o!

Por Anna Carolina Souza Marques