O bailarino tem que ser magro? Entrevista com Amanda

O bailarino tem que ser magro? Entrevista com Amanda

Ainda na linha da reflexão “o bailarino tem que ser magro?” conversei com a bailarina Amanda Lana.


Bailarina Amanda Lana

Amanda foi uma das minhas primeiras alunas de preparação física para bailarinos quando comecei a trabalhar e estudar essa área em parceria com a Compasso Academia de Dança.

Ela sempre foi muito talentosa e teve uma boa formação na Compasso, formação esta que incluía a preparação física comigo. Aos 15 anos ganhou uma vaga para estudar na Academie Princesse Grace em Mônaco.

Dificuldades por causa do tipo físico

“Eu passei sim dificuldades por causa do meu físico, e até hoje tenho que tomar muito cuidado. Como eu sou relativamente baixa, o meu peso deve ser bem controlado e estável. Passei por uma época que estava bem acima do peso, e realmente não estava melhorando na questão da técnica da dança.

Por sorte tive pessoas me alertando e me ajudando a passar por isso. É sim desconfortável e abalável. Até hoje eu estou sempre lutando contra minhas vontades e tentando manter um corpo saudável. Tem horas que eu estou tão preocupada com a minha aparência que parte do meu trabalho não serve de nada porque não tenho a concentração no que realmente importa. Agora eu lido bem melhor com essa situação e aos poucos estou conhecendo melhor meu corpo.

Na minha turma eu era a única com esse problema. Eu tentava não ligar e não dar muita importância para o que os outros falavam. Tive de emagrecer 4 kg para ter certeza que seria aprovada para o ano seguinte.”

Quando Amanda me enviou esse comentário eu logo pensei: “o que será que é estar acima do peso para Amanda? Qual o padrão ou referência ela está usando para chegar nessa conclusão?” Ainda mais por conhecê-la e saber que o que ela chama de “acima do peso” é de longe algo que poderia influenciar na sua melhora técnica.


Bailarina Amanda Lana

Trabalho dos Bastidores durante as férias

Quando Amanda voltou de férias para o Brasil ameaçada de perder sua vaga por causa desses tais 4 quilos, ela me procurou e fez um intensivo no Bastidores. Trabalhamos junto com o acompanhamento que ela estava fazendo com nutricionista buscando diminuir sua massa gorda e aumentar sua massa magra. Por mais que as suas circunferências diminuíssem e ela aparentasse mais magra, o peso na balança não diminuia e Amanda sofria com a pressão dos 4 quilos.

Amanda Lana treinando no Bastidores durante suas férias no Brasil

Então eu disse a ela (e me lembro como se fosse ontem): “Amandinha, vamos fazer o seguinte. Vamos diminuir o seu percentual de gordura, e aumentar sua massa magra, com isso você vai ficar aparentemente mais magra, mesmo que o seu peso não diminua. Quando você voltar para a sua escola eu duvido que o seu diretor vai querer te pesar, porque ele vai VER que você está mais magra. E se ele o fizer, você levará um relatório meu mostrando as suas composições corporais e que você perdeu até mais do que quatro quilos de gordura, mas que como seus músculos pesam mais que gordura, isso não é visível na balança.”

Não sei se Amanda foi pesada ou não na escola. Só sei que não precisei fazer relatório e esse ano ela se forma. Além do mais, já está contratada pela Royal Swedish Ballet!

Amanda é o exemplo de talento e trabalho em equipe.


Amanda Lana

O bailarino tem que ser magro? Entrevista com Bruna

O bailarino tem que ser magro? Entrevista com Bruna

Continuo a refletir sobre a questão “O Bailarino tem que ser magro?”, o que é “ser magro”?, até que ponto a necessidade de “ser magro” ajuda ou atrapalha uma carreira?

Pensando nisso busquei ajuda de duas pessoas que dividiram a caminhada da dança comigo em momentos distintos da minha carreira.

Hoje posto sobre a Bruna Bizzotto. Bruna estudou comigo no Centro de Formação Artística do Palácio das Artes – CEFAR. Dividimos turmas, coreografias e até o mesmo papel como solistas. Enfrentamos juntas a pressão do “senão você não subirá ao palco” ou “senão você será substituída”, acredito que nos tornamos mulheres mais fortes. Mas a custo de que?

Bruna dividiu alguns sentimentos dela conosco:

“Sempre passei por esse problema do físico! Nunca fui magrinha e sempre tive bumbum e coxas avantajadas que me fizeram ouvir sempre que estava gorda, que para conseguir um papel ou mesmo me manter na cia teria que emagrecer e ficar igual fulana… Sempre!

Passar por isso, num período tão complicado como a adolescência, teve (e ainda tem) reflexos diretos na auto estima, na confiança e em diversos outros aspectos da vida! Eu era uma boa bailarina, esforçada, dedicada e talentosa. Sei reconhecer isso hoje mas antes era impossível pra mim! De nada adiantava ser boa sem ser magricela! Certa vez eu fui na minha fisioterapeuta anja (Andrea Mourão) e ela me disse que eu estava bem magra. Eu contei que minha diretora havia acabado de me falar que eu tinha que emagrecer uns 5 quilinhos pelo menos. Ela me sentou, me disse que se eu emagrecesse mais que aquilo, ia comprometer meu ciclo menstrual e que eu perderia massa muscular tão importante para o trabalho de um bailarino (e principalmente para o tipo de trabalho da cia que eu dançava).


Bruna Bizzoto

Minha criação e apoio familiar principalmente por parte da minha mãe nunca me deixaram adoecer (apesar de diversas tentativas de tomar remédio escondido, tentar forçar vômito, parar de comer…)! Mas o que mais me chateia é ver que agora, que parei de dançar e ganhei mais peso, eu não curti o meu corpo enquanto ele estava em sua melhor fase! Eu era linda e me fizeram acreditar que era gorda, que não estava bem e que ser gorda é a pior coisa do mundo!


Bruna Bizzotto

Não sou frustrada e acho que parar de dançar foi a melhor escolha da minha vida. Abriu meus horizontes, me fez deixar de abaixar a cabeça pra tudo que me é imposto, me fez reconhecer o meu valor real e entender que sou muito mais do que um corpo que, independente da qualidade do que ele desenvolve e de seu talento, se não está extremamente magro, de nada adianta!

Um beijo Babi! Que você consiga fazer a diferença nesse mundão da dança e em tudo que você se propõe!

Sucesso SEMPRE!”

Quando fiquei sabendo que a Bruna tinha parado de dançar meu coração doeu. Será que se os professores tivessem sido mais conscientes Bruna estaria dançando até hoje? Afinal de contas, o que são 5 quilos? Que medida mágica é essa que torna uma pessoa uma bailarina?

Meu sonho e batalha de hoje é que os professores troquem a frase: “você tem que emagrecer!” ou “você está 5kg acima do peso” por “vamos te encaminhar para uma equipe multidisciplinar composta por profissionais qualificados para medir o seu percentual de gordura, circunferências, flexibilidade, força, testes de sangue e propor um treinamento complementar acompanhado por nutricionista, sem sofrimento, cuidando da sua saúde física e mental, afinal de contas, estamos todos do mesmo lado…”.

Será que isso vai ser possível um dia? O Bastidores foi criado pra isso, mas a batalha é tão longa e intensa! Talvez daqui uns 20 anos eu releia esse post e me sinta orgulhosa por ter conseguido fazer o que a Bruna me incentivou:

“fazer a diferença nesse mundão da dança e em tudo que você se propõe”.


Bruna Bizzotto

Por que o bailarino tem que ser magro?

Por que o bailarino tem que ser magro?

Existem alguns motivos que fazem com que o bailarino deva ser “magro”:

Primeiro, estética, mas não o mais importante.

O segundo é devido ao peso que os bailarinos do sexo masculino (mesmo feminino hoje em dia) tem que suportar para carregar seus colegas de cena. Ainda mais considerando jovens bailarinos (ou aqueles que também não fizeram fortalecimento e, portanto, são fracos).

Impacto dos saltos

O terceiro motivo é por conta da sobrecarga em articulações e na unidade músculo-tendão (músculo). Um estudo realizado por AQUINO e colaboradores em 2010 sugere que os bailarinos estão expostos à impactos no solo que podem lesionar e HAMILTON e colaboradores em 2006 analisaram o impacto dos saltos e aterrissagens no ballet sugerindo um impacto de três a cinco vezes o peso corporal.

Isso significa que se uma bailarina pesa 50 kg, ao aterrissar suas estruturas corporais (tornozelo, joelhos, quadril e coluna principalmente) devem estar preparados para receber uma carga de 150 a 250 kg por salto! Se ela executa 10 saltos, o impacto pode ser de 1500 a 2500 kg por dia (cá entre nós sabemos que um bailarino não executa apenas 10 saltos por dia…). Se essa mesma bailarina engorda e passa a pesar 60 kg, esses valores passam a ser de 180 a 300 kg por salto!

Dificuldade nos passos

Um quarto motivo é o fato de que, se o bailarino é mais pesado a força que ele mesmo tem que fazer para sustentar a própria perna ou qualquer outro segmento corporal é maior. Logo, developpés, grand battements e todos os passos podem ficam simplesmente “mais difíceis”.

Mas todos quilos “extras” são ruins?

Gostaria de deixar claro que quando falo de engordar estou me referindo a ganho de gordura. Uma coisa que nem todos sabem é que músculo pesa mais que gordura, mas ocupa menos espaço. Lembra da pegadinha do “o que pesa mais? 1 kg de algodão ou 1 kg de ferro?”. Os dois pesam o mesmo tanto, mas o algodão ocupa um volume muito maior. O mesmo com o músculo e a gordura.


Volume ocupado por 1kg de gordura (esquerda) e 1kg de músculo (direita).

É importante estabelecer essas diferenças porque muitos bailarinos que iniciam a preparação física acham que engordaram ao subirem na balança e constatarem que o peso aumentou. Cegos com o que acham que o peso significa, criados por valores e conhecimentos errados, saem correndo da preparação física.

Aviso: A BALANÇA NÃO MEDE O SEU PERCENTUAL DE GORDURA.

O que acontece na maioria dos casos é que você aumentou sua massa magra (músculo) e diminuiu sua massa gorda (gordura). Você está aparentemente mais “fino”, a circunferência dos seus membros diminuiu, mas na balança o seu peso pode ter aumentado.

O que isso significa? Que você está como deve ser, forte e magro. BENNELL e colaboradores (1999) concluíram em sua pesquisa que uma boa carreira clássica demanda de um bailarino forte e flexível. Então a partir de hoje, não tente avaliar o seu físico pelo peso medido na balança, e não aceite comentários como “você está gordo!” só porque você pesa mais que outra pessoa.

Emagrecer do jeito certo

Quando faço esse discurso sempre ouço a pergunta quase imediata: “Mas então se eu tiver menos músculos eu vou ser mais leve e poderei sustentar minha perna mais alto ou saltar mais alto!” Não!!! Porque os responsáveis pelo movimento do esqueleto são os músculos, se você tiver menos você vai saltar mais baixo e não vai sustentar sua perna alta. Quanto mais músculos mais força, mesmo que o seu peso aumente, a capacidade de geração de força de um músculo é muito maior que o peso desse mesmo músculo e não é porque o seu peso aumentou que a circunferência dos seus músculos também aumentou.

Treino de força

Infelizmente ainda recebemos alunos no Bastidores que chegam estabelecendo as regras (de todos os seus 5 minutos de pesquisas na internet ou de conselhos errados que ouviram) “Quero treinar apenas minha flexibilidade porque se eu fizer musculação vou ficar com a coxa muito grossa”. Essa frase é tão comum que Twitchett e colaboradores (2009) fizeram uma pesquisa sobre isso e destacaram que dançarinos temem realizar o treinamento de força, por medo da ocorrência de hipertrofia (aumento de massa magra), que poderia prejudicar a estética do bailarino.

No entanto, poucos bailarinos sabem que não é bem assim. A carga de treinamento pode ser manipulada para aumentar a força sem necessariamente resultar em hipertrofia (WEINECK, 1991). Mas esse pré-conceito está tão estabelecido em suas mentes que só em ouvir a palavra “caneleira” eles entram em desespero.

Pais e professores: Atenção!

Gostaria agora de fazer um apelo aos pais e aos professores desses bailarinos. Vamos parar de acreditar em afirmações sem embasamento científico. Peso não é referência, precisamos de mais medidas como circunferência e percentual de gordura para avaliar o físico de um atleta/bailarino. Trabalho de força é essencial para uma carreira saudável, não associem musculação com hipertrofia, temos pesquisas suficientes para provar que treinamento de força não necessariamente fará com que o seu músculo aumente de volume, e pesquisas suficiente que demonstram a importância do treinamento de força na dança.

Professor, vamos acabar com a lacuna entre Ciência da Dança e prática da dança, oriente o seu bailarino de forma adequada, se você precisar de ajuda O BASTIDORES ESTÁ AQUI PARA TREINAR O SE ALUNO JUNTO COM VOCÊ! Lembre-se que você é a maior referência para o seu aluno. Artigos científicos e pesquisas caem por terra quando você faz uma afirmação, o seu aluno vai acreditar no que você disser, então… CUIDADO.

Pais, não deixem o seu filho bailarino ser influenciado por afirmações de conhecimento popular sem embasamento científico que podem atrapalhar a carreira e afetar o emocional dele.

Este post é um apelo ao pais e professores dos bailarinos. Um apelo do fundo do coração de uma pessoa que vê o constante sofrimento devido ao perfil físico imposto principalmente aos bailarinos clássicos, e mais do que isso, a errada ideia que é passada em busca da aquisição desse perfil.

Misty Copeland


Misty Copeland, primeira Bailarina do American Ballet.

“Sua coxa não é tão fina, seus braços não são tão compridos, ela tem muito peito para uma bailarina, ela é muito musculosa… ela é negra!” Foram comentários que ela provavelmente ouviu que fizeram ela quase desistir, mas ela passou por cima de todo o estereótipo da bailarina com sua técnica e talento.

Sua força, física e emocional fizeram ela fazer história.

 

Referências:

AQUINO, C.F.; et al. Análise da relação entre dor lombar e desequilíbrio deforça muscular em bailarinas. Fisioter. Mov. v. 23, n. 3, p. 399-408, Jul/Set, 2010.

HAMILTON, D.;et al. Dance training intensity at 11–14 years is associated withfemoral torsion in classical ballet dancers. Br. J. Sports Med. v. 40, n. 4, p. 299-303, Abr, 2006.

BENNELL K.; et al. Hip and ankle range of motion and hip muscle strength in young novice female ballet dancers and controls. Br. J. Sports Med. v. 33, n. 5, p. 340-346, Out, 1999.

TWITCHETT, Emily A.; KOUTEDAKIS, Yiannis; WYON, Matthew. Physiological fitness and professional Classical ballet performance: abrief review. The Journal of Strength and Conditioning Research. v.23, n. 9, p.2732 -2740, dez. 2009.

WEINECK, Jurgen. Biologia do esporte. São Paulo: Manole, 1991, cap. 4, p.181-205.