O que afeta o equilíbrio na dança?

O que afeta o equilíbrio na dança?

A manutenção do equilíbrio, tanto no relevé, piqué ou piruetas é uma tarefa muito mais complexa do que parece.

Mas a final de contas: O que é equilíbrio? Existe só um tipo? Como meus olhos estão relacionados ao equilíbrio? E meus ouvidos também?

Os diferentes equilíbrios

De forma geral, o equilíbrio pode ser definido como uma condição de um sistema em que as forças que sobre ele atuam se compensam, anulando-se mutuamente.

Mas existem vários tipos de equilíbrio, como:

Então, essa definição se torna muito generalizada e não nos fornece informação suficiente.

Para dançarinos e artistas, o equilíbrio postural é a habilidade de manter o  alinhamento e a posição corporal desejada durante uma atividade seja ela estática ou dinâmica (Cupss, 1997) tentando manter o centro de gravidade estável.

Mas antes de falarmos mais sobre isso, precisamos definir alguns conceitos.

 

Centro de Gravidade

O centro de gravidade pode ser descrito como o único ponto de um corpo ao redor do qual todas as partículas de sua massa estão igualmente distribuídas (Lehmkuhl & Smith, 1989), é neste ponto em que a força da gravidade age.

 

No corpo humano, o ponto de equilíbrio, ou centro de gravidade, é aquele ponto em que o corpo poderia ser rodado livremente em qualquer direção, ou o ponto que você consegue equilibrar o seu colega no aviãozinho 🙂

Mas esse ponto não é o mesmo para todas as pessoas. Ele muda de acordo com a idade, posição corporal e até sexo. Em mulheres o centro de gravidade tende a ser mais baixo do que em homens, porque mulheres tem mais massa no membro inferior enquanto os homens tem mais massa no membro superior.

 

O ponto de equilíbrio está sempre no mesmo lugar?

Como o centro de gravidade é o ponto no qual há o somatório das forças internas igualado ao somatório das forças externas, mas a modificação da posição também ocasiona modificação na posição do centro de gravidade.

Em relação ao equilíbrio postural, quando nos posicionamos em primeira posição en dehors, o peso (massa x campo gravitacional sempre em direção ao centro da terra) do nosso corpo, deve estar distribuido entre as duas pernas. Mas ao realizar o tendu com uma das pernas, o peso deve ser transferido para a perna de base. Se não for transferido corretamente, o bailarino não conseguirá permanecer parado nessa posição.

Na foto abaixo a linha pontilhada representa a linha gravitacional, uma linha imaginária que passa pelo centro de gravidade no sentido vertical. Quando a bailarina está na primeira posição o peso deve estar distribuído entre as duas penas (próximo ao calcanhar). Mas em tendu o peso passa para a perna de base, e, para compensar a perna ao lado, o peso deve ser transferido para os dedos.

 

Fatores que afetam o equilíbrio

Os principais fatores que afetam o equilíbrio são a fraqueza muscular,tamanho da base onde o corpo está, tipo de movimento, feedback sensorial, déficit de propriocepção e amplitude de movimento limitada ou excessiva. Vamos comentar sobre cada um desses fatores abaixo.

 

Força muscular

Para toda posição almejada, um eixo diferente é necessário para a manutenção do equilíbrio. Desta forma, em qualquer movimento, com ou sem objeto sendo carregado, o centro de gravidade é modificado, obrigando um grupo de músculos a se contraírem e outro a se relaxarem para permitir que o corpo fique nessa posição, sem cair.

Esses músculos que estão em constante contração para manter a postura corporal ereta são em sua grande maioria músculos extensores, principalmente do pescoço, das costas e das pernas e são conhecidos como músculos anti-gravitacionais. A fraqueza desses músculos pode ocasionar a queda (normalmente para frente – flexão).

 

Tamanho da base

Quanto mais difícil a posição em que se pretende equilibrar, ou seja, menor a base e/ou maior afastamento dos membros em relação ao centro de gravidade, maior a força e a quantidade de ajustes que os músculos tem que fazer para manter o equilíbrio.

Percepção sensorial

Como a estabilidade (habilidade de manter a posição original) está relacionada com o equilíbrio e o equilíbrio está relacionado com a manutenção do centro de gravidade dentro de uma base, o corpo humano precisa de um sistema para informar quando os músculos devem contrair ou relaxar para garantir o equilíbrio.

Isso significa que quando estamos em pé, parados, os nossos músculos estão em constante contração e co-contração para garantir esse estado de equilíbrio. Nós não percebemos esse ajuste pois nosso corpo já aprendeu a regular as forças necessárias para a manutenção dessa posição. Porém, ao fechar os olhos, você será capaz de perceber um maior esforço dos seus músculos para ficar na mesma posição. Ou então, quando você tem uma infecção no ouvido por exemplo, parece que você está tonto e não consegue ficar em pé direito.

Isso acontece porque os ajustes para manter o equilíbrio dependem do feedback sensorial (vestibular, visual e proprioceptivo) Frank e Earl (1990) e outros elementos.

 

Receptores sensitivos

O responsável por emitir as ordens de ajuste aos músculos é o sistema nervoso central. Este por sua vez, necessita de informações precisas sobre a posição de cada uma das partes do  corpo.

Existem receptores sensitivos localizados na pele e também mais profundamente nas articulações. Eles proporcionam ao sistema nervoso central uma valiosa informação sobre a posição do corpo e cada uma de suas partes no espaço.

A visão proporciona uma ideia da posição do corpo, desta vez relativamente ao espaço, e também fornece pontos de referência.

Por último, o aparelho vestibular do ouvido interno informa sobre a posição e os movimentos da cabeça.

Toda a informação chega de forma constante ao sistema nervoso central que analisa e, a seguir, ordena a contração ou o relaxamento dos diversos músculos corporais de acordo com as necessidade.

 

Amplitude de movimento

Este fator pode afetar o equilíbrio devido a não obtenção de uma posição de melhor eficiência muscular. Vamos dar dois exemplos: um idoso que não consegue estender o tronco na posição ereta por falta de flexibilidade nos músculos flexores do tronco terá que fazer mais esforço para ficar em pé do que outro idoso que consegue estender o tronco completamente.

Na dança, vamos imaginar o aluno que não consegue realizar a meia-ponta alta por falta de amplitude de movimento dos flexores dos dedos e na articulação do tornozelo. Neste caso, mais força muscular é necessária uma vez que não há alinhamento ósseo (a linha gravitacional deve passar por todos os óssos que se sobrepõe).

Por incrível que pareça, o bailarino que tem muita amplitude de movimento, ou seja, a ponta muito arqueada, também encontrará dificuldades em manter o equilíbrio pelo mesmo motivo, mas pecando pelo excesso. O ideal para o equilíbrio é que haja amplitude de movimento (flexibilidade, vide posts anteriores) suficiente para que permitir o alinhamento ósseo e, assim, a eficiência muscular.

 

Como melhorar o equilíbrio na dança?

Os artistas precisam de um trabalho combinado de flexibilidade, força e propriocepção para melhorar seu equilíbrio. Não importa se o equilíbrio postural pretendido é estático (como em balances) ou dinâmico (como em piruetas). Mas aí você me pergunta: “De quais músculos/partes do meu corpo?” Bom, isso é individual e deve ser identificado em uma avaliação física.

A equipe BASTIDORES é qualificada para esse tipo de avaliação e treinamento.

Encontre um profissional perto de você!

 

Referências:

Cupps B. Postural Control: a current view. Neuro Developmental Treatment, 14. p. 3-8, jan/fev. 1997

Frank JS, Earl M. Coordination of posture and movement. Physical Therapy, Alexandria, v. 70, p. 855- 863, 1990.

Lehmkuhl, L. Don; Smith, Laura K. Cinesiologia clínica de Brunnstrom, 1989.

Teixeira, C. L. Equilíbrio e controle postural. Brazilian Journal of Biomechanics. Revista Brasileira de Biomecânica, 11(20), 30-40. (2013)

Fotos:

Capa –  Pilobolus (Flick)

Texto – Modificadas do Google imagens

Como controlar a pirueta de acordo com as leis da física

Como controlar a pirueta de acordo com as leis da física

Sabe aquele bailarino que faz um milhão de piruetas e ainda termina no balance de frente para o público? Sim… Aquele que você pensa “Não pode ser… esse vídeo foi editado” ou “Esse aí fez um pacto com o diabo”.

Não tem pacto nenhum! Eles simplesmente aprenderam na prática como utilizar as leis da física.

Mas eu não gosto de física

“Ah nem! Não gosto de física, sou ruim em matemática, por isso que escolhi ser bailarino”. Se é assim que você pensa, seu caminho para ser um bom bailarino está mais longe do que você imagina.

Ok, você não precisa ter um diploma em física e nem falei que matemática é fácil, mas entender como a física afeta o movimento (biomecânica) pode te ajudar e muito!

Para dar mais um empurrãozinho e ajudar a abrir a cabeça vou revelar um segredo: eu sou péssima em matemática. Quando quebro a cabeça para entender uma conta, eu brinco que estudar biomecânica foi um erro de percurso. Porém, quando entendemos a beleza do movimento na forma de um gráfico tudo começa a fazer sentido e a técnica melhora porque a eficiência aumenta. Você passa a saber como controlar o seu corpo no espaço, ao invés de contar com sorte, talento ou repetições infinitas.

Primeira Lei de Newton

Vou tentar explicar da forma que fiz para poder entender.

Lembra da famosa inércia? Aquela lei de Newton que diz que um corpo parado (na frente da TV) tende a ficar parado e o corpo em movimento (dançando) tende a ficar em movimento até que uma força seja aplicada (professor mandando parar ou te ligando pra perguntar porque você não foi na aula)? Ela também se aplica as piruetas.

“Isso significa que se eu encontrar o eixo eu poderia girar pra sempre?” Sim e não. Sim, se não tivessemos nenhuma força em oposição a esse movimento, não, porque temos várias forças em oposição ao movimento, como a gravidade e o atrito.

Inércia e a Pirueta

Imagine agora, que uma linha seja traçada no chão, como um compasso, durante o giro. Obviamente, como estamos girando essa linha formará um círculo ao redor do eixo (a perna de base). A distância do ponto mais afastado do corpo (braços abertos, ou perna na segunda posição, por exemplo) representam o raio desse círculo. Quanto mais próximo do eixo os membros estão, menor o raio do círculo.

“Mas o que a inércia tem a ver com o raio do círculo (literalmente falando)?”

O Momento de Inércia pode ser calculado pela fórmula:  I = m.r² , onde I é o momento de inércia, m a massa e r o raio.

Quando um bailarino executa uma sequência de piruetas, a massa dessa pessoa muda de uma pirueta pra outra? (Massa é aquilo que você vê quando pisa em uma balança – kg – e o que, erroneamente, muitas pessoas chamam de peso).

Não! (Talvez sim de um dia pro outro, antes ou depois do almoço… mas não entre uma pirueta e outra).

Só tem mais uma coisa que afetaria o momento de inércia de acordo com a equação acima: o “raio” do raio, ou seja o raio ao quadrado.   🙂

Como todas as variáveis dessa equação estão no numerador significa que se eu aumentar a massa o momento de inércia vai aumentar, se eu aumentar o raio o momento de inércia vai aumentar. Similar, porém ao inverso acontece se eu resolver diminuir a massa ou o raio.

Bailarina(o) baixinha x alta

Esse é um dos motivos que pessoas baixinhas giram muito. Elas são normalmente leves (menor massa) e não são muito longilíneas (menor raio), consequentemente o momento de inércia (força para sair do estado parado e causar o movimento) é menor!

Ou seja, nas mesmas condições (mesmo atrito, mesmo balance e mesma posição – pirueta a la seconde, por exemplo) a pessoa mais baixa gira mais do que a mais alta (lembrando que o raio do movimento, no caso da pirueta a la seconde, é definido pelo tamanho da perna da pessoa e não pela altura do bailarino, porém, como as pessoas mais altas possuem membros mais longos o raio tende a ser maior do que uma pessoa mais baixa na mesma posição).

Como parar, ou acelerar a pirueta ‘do nada’?

Não tem mágica! É tudo uma questão de combinar inércia e velocidade.

A velocidade angular é representada pela fórmula ω = v/r, onde ω é a velocidade angular, v é a velocidade instantânea (naquele exato momento) e r é o raio (olha ele ai de novo gente!).

Como agora o raio está no denominador significa que as variáveis são inversamente proporcionais, ou seja, se eu aumentar o raio a velocidade diminui, e se eu diminuir o raio a velocidade aumenta.

É exatamente isso que os bailarinos fazem quando querem frear (abrem os braços ou as pernas) ou acelerar (fecham os braços e as pernas) o movimento.

Equilíbrio + Inércia + Velocidade = Pirueta

Utilizar o momento de inércia para controlar as piruetas ficou fácil agora. Tudo é uma questão de manter o eixo.

Não consegue manter o equilíbrio? Leia esse post e saiba como melhorar!

Agora que a gente entendeu a biomecânica da pirueta vamos assistir esses vídeos com um olhar mais analista, porém, apreciando sempre!